sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Fim de espera
Solange Luz

       É uma noite de maio, no céu alguns relâmpagos se espalham. Juliana chega da rua e, com receio da chuva, corre para o quintal e recolhe as roupas do varal. As folhas das árvores agitam-se violentamente sacudindo sua saia, o que faz ela se agarrar numa viga de concreto até passar o vento. Depois entra em casa.
      Lembra-se de rezar o terço, o que faz toda noite para pedir à Santa Rita de Cassia trazer seu marido de volta. Ele foi fazer uma viagem e não voltou mais. Tem esperança que ele retorne. Trabalhava comprando e vendendo feijão. Saiu da cidade no meio da noite, fugindo dos fornecedores, uns negócios deram errado e não teve como honrar os compromissos. Na noite da viagem, disse que passaria uns tempos fora e depois voltaria.
       Passaram-se meses. Ele ainda ligou algumas vezes. Fez promessas. Quando conseguisse melhorar de vida. Depois foi escasseando, até que parou. Cinco longos anos. E todos os dias ela esperava.
     Na comunidade, no início teve as cobranças, muitas perguntas, e ela sem respostas. Sentindo os olhares de comiseração do povo, aquela que fora abandonada.
    Juliana conhecera Inácio ainda bem jovem, com quinze anos, seus pais quiseram logo que os dois se casassem, ele era de boa família e assim o casamento foi arranjado, antes que o rapaz perdesse o interesse. Naqueles idos de 1970, a mãe dela sempre a lhe dizer que casasse logo, antes que ficasse velha, que era necessário ter um homem para dar segurança.
      Trinta anos depois ela está ali, naquela sala e naquela noite não tem vontade de rezar. A chuva cai forte no telhado e ela assiste a água descendo através da janela. O pé de amêndoa em frente à casa tem seus galhos retorcidos. Os trovoes ribombam.
     Naquele dia estivera no médico, ele diagnosticara um aneurisma em seu cérebro: precisava fazer a cirurgia. Falara do quão era delicado o processo. Os pensamentos fervilham e ela faz uma retrospectiva de sua vida. Os últimos anos. Volta a lembrar da mãe, mas agora sua figura não tem a importância de antes. Hoje seus conselhos não fazem mais sentido.
       De que lhe adiantou jogar fora toda sua vida pela espera infinita de Inácio? De que valeu tanta dedicação? Tudo em nome do amor! Agora está sozinha. Tem receio de enfrentar a cirurgia, mas sabe que não tem ninguém em quem se apoiar. Só em si mesma e na medicina.
       A chuva para, Juliana se lembra de preparar algo para comer. Amanhã será um novo dia.

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