Acredito que a literatura, a poesia contribui fundamentalmente na nossa compreensão do real, do mundo e mais ainda, de nós mesmos. E como expressava Caio Fernando Abreu, creio que a arte propicia, em alguns momentos, o resgate de partes escondidas de nosso eu.
"Talvez a arte devesse ter um papel um pouco como o da religião, no sentido latino de religare mesmo. Um sentido quase ecológico, para ajudar o ser humano a reintegrar todas as suas porções perdidas, fragmentadas. Propor outros mundos alternativos, novas leituras do real" (Caio Fernando Abreu)
É tão difícil às vezes discorrer sobre emoções, sentimentos, sobre o que nos assalta em determinados momentos da nossa vida, que só sabemos simplesmente fruir o que passa, ou então recorrer à arte, à literatura, à poesia, como Fernando Pessoa descreve sobre a magia da vida:
(...)
"Talvez a arte devesse ter um papel um pouco como o da religião, no sentido latino de religare mesmo. Um sentido quase ecológico, para ajudar o ser humano a reintegrar todas as suas porções perdidas, fragmentadas. Propor outros mundos alternativos, novas leituras do real" (Caio Fernando Abreu)
É tão difícil às vezes discorrer sobre emoções, sentimentos, sobre o que nos assalta em determinados momentos da nossa vida, que só sabemos simplesmente fruir o que passa, ou então recorrer à arte, à literatura, à poesia, como Fernando Pessoa descreve sobre a magia da vida:
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Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
(Álvaro de Campos)
No mesmo sentido, temos os versos de Guilherme de Almeida, nos quais o eu lírico, mantém-se fora do crime de viver:
ÁLIBI
Não estive presente
quando se perpetrou
o crime de viver:
quando os olhos despiram,
quando a s mãos se tocaram,
quando a boca mentiu,
quando os corpos tremeram,
quando o sangue correu.
Não estive presente.
Eu estive fora, longe
do mundo, no meu mundo
pequeno e proibido
que embrulhei e amarrei
com cordéis apertados
de meridianos meus
e de meus paralelos.
Os versos que escrevi
provam que estive ausente.
Eu estou inocente.
(Guilherme de Almeida)