A solidão é um estado da alma em que a pessoa se sente só, desamparada, perdida e, ao mesmo tempo, desejando desesperadamente que alguém lhe acolha, abrace, escute. Uma solidão agônica que o eu lírico tem a dolorosa lucidez de que só tem a si mesmo. O poema de Natércia Freire representa bem esse estado.
QUANDO AS MANHÃS ACABAREM
Corram depressa as cortinas
e não se importem que eu fique
entontecida no escuro,
Deixem que eu me abrace a mim
já que fujo ao que eu procuro...
Fechem todas as janelas
e calem todas as falas.
(estou sozinha com as estrelas,
vou prendê-las e guardá-las).
Não me roubem a tristeza
de não viver a alegria
das manhãs e dos regatos.
(- Meus abraços de algum dia! -
Estou sozinha com os retratos.)
Corram depressa as cortinas
e não segredem, de longe,
as palavras pequeninas.
Fechem todas as janelas
e tapem todas as trinchas
para que eu não perca as estrelas.
Porque só tenho os meus braços
para me enrolar na agonia...
Quero mais a noite funda
que a mentira deste dia.
E não se importem que eu fique
endoidecida no escuro
Deixem que eu me abrace a mim,
já que fujo ao que eu procuro!
(Natércia Freire)