sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Solidão

     A solidão  é um estado da alma em que a pessoa  se sente só, desamparada, perdida e, ao mesmo tempo, desejando desesperadamente que alguém lhe acolha, abrace, escute. Uma solidão agônica que o eu lírico tem a dolorosa lucidez de que só tem a si mesmo. O poema  de Natércia Freire representa bem esse estado.


QUANDO AS MANHÃS ACABAREM


Corram depressa as cortinas
e não se importem que eu fique
entontecida no escuro,

Deixem que eu me abrace a mim
já que fujo ao que eu procuro...
Fechem todas as janelas
 e calem todas as falas.
(estou sozinha com as estrelas,
vou prendê-las e guardá-las).

Não me roubem a tristeza
de não viver a alegria
das manhãs e dos regatos.
(- Meus abraços de algum dia! -
Estou sozinha com os retratos.)

Corram depressa as cortinas
e não segredem, de longe,
as palavras pequeninas.
Fechem todas as janelas
e tapem todas as trinchas
para que eu não perca as estrelas.

Porque só tenho os meus braços
para me enrolar na agonia...
Quero mais a noite funda
que a mentira deste dia.

E não se importem que eu fique
endoidecida no escuro
Deixem que eu me abrace a mim,
já que fujo ao que eu procuro!
(Natércia Freire)

sábado, 30 de julho de 2011

Amor

Nomeei-te no meio dos sonhos


Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

(Ruy Belo)


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ser do mar

Beira Mar
Sou morador das areias
De altas espumas
Os navios passam pelas minhas janelas
Como o sangue nas minhas veias
Como os peixinhos nos rios,

Não tem velas, e tem velas
E o mar tem e não tem sereias
E eu navego, e estou parada
Vejo mundos e estou cega,
Porque isto é mal de família
Ser de areia, de mar, de ilhas
E até sem barco navega
Quem para o mar foi fadada,

Deus te proteja Cecília
Que tudo é mar - e mais nada.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)



Sobre o amor

O seu santo nome
Carlos Drummond de Andrade

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.


O amor continua sendo um dos grandes temas da literatura universal e também motivo da aproximação entre as pessoas. 
No entanto, tem-se observado uma banalização dessa palavra no mundo moderno. Por reles motivos, os amantes pronunciam a palavra amor, às vezes para se sentirem melhor, justificar a si mesmos em alguns relacionamentos. Conspurcaram o amor, deitaram abaixo de sua majestosa posição. Criou-se uma grande confusão e mal-entendidos.  Enquanto para alguns, se mantém a perfeição dos sentimentos, para outros é pura experimentação! 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Encantamento da vida

Acredito que a literatura, a poesia contribui fundamentalmente na nossa compreensão do real, do mundo e mais ainda, de nós mesmos. E como expressava Caio Fernando Abreu, creio que a arte propicia, em alguns momentos, o resgate de partes escondidas de nosso eu.


"Talvez a arte devesse ter um papel um pouco como o da religião, no sentido latino de religare mesmo. Um sentido quase ecológico, para ajudar o ser humano a reintegrar todas as suas porções perdidas, fragmentadas.   Propor outros mundos alternativos, novas leituras do real"  (Caio Fernando Abreu)

É tão difícil às vezes discorrer sobre emoções, sentimentos, sobre o que nos assalta em determinados momentos da nossa vida, que só sabemos simplesmente fruir o que passa, ou então recorrer à arte, à literatura, à poesia, como Fernando Pessoa descreve sobre a magia da vida:

(...)
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
(Álvaro de Campos)


      No mesmo sentido, temos os versos de Guilherme de Almeida, nos quais o eu lírico, mantém-se fora do crime de viver:

ÁLIBI

Não estive presente
quando se perpetrou
o crime de viver:
quando os olhos despiram,
quando a s mãos se tocaram,
quando a boca mentiu,
quando os corpos tremeram,
quando o sangue correu.
Não estive presente.
Eu estive fora, longe
do mundo, no meu mundo
pequeno e proibido
que embrulhei e amarrei
com cordéis apertados
de meridianos meus
e de meus paralelos.
Os versos que escrevi
provam que estive ausente.
Eu estou inocente.
(Guilherme de Almeida)