domingo, 29 de julho de 2012

Carlos Pena Filho e um belo poema sobre o amor e suas dádivas.


Quando amamos sentimos o impulso de nos doar, de dar, de dedicarmos integralmente à pessoa amada, incorrendo no perigo de esquecermos de nós mesmos. Neste poema de Carlos Pena Filho, o eu-lírico declara, a partir de metáforas da natureza, essa doação.
As Dádivas do Amante
Deu-lhe a mais limpa manhã
Que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
E mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
Deu-lhe o verde da ramagem,
Deu-lhe o sol do meio dia
E uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
E a que ainda estava por vir,
Deu-lhe a bruma dissipada
Que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
Em que uma rosa floriu
Nascida do próprio vento;
Ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
E um amanhecer violento
Que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
E mais não podia dar.
                                            Carlos Pena Filho   (1929-1960)

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