sábado, 25 de janeiro de 2020

Autorretrato: Mulher Libertária


Autorretrato: Mulher libertária
Solange Luz[1]
          Nasci nesses lugarejos escondidos nos mapas. No afã de conhecer a vida, lia os livros do mundo e me encantava com o que via nas páginas, desejava conhecer os longínquos lugares apresentados.  Mas meu meio familiar me obrigou a exercitar a filosofia da ausência, faltava quase tudo. Ao meu redor, o vislumbre era seca, pobreza e o destino do casamento para as mulheres.
          Naquele lugar, desde menina sabia o determinismo da minha sorte, porém a literatura me mostrou que havia outras existências. Fugi desse destino. Rosário de trabalho. Muito estudo. Noites mal dormidas. Porém o sonho era sacrossanto: ser uma mulher livre. Desventuras, asperezas e alguns prantos não me alquebraram. Foi então que passei a acreditar que minha têmpera era mais forte que as pedras que margeiam o rio da minha cidade. 
        Aos treze anos saí de onde nasci para estudar o segundo grau em Picos, dividia um quarto sem janela com mais quatro primas e irmã. Todas nós cursávamos a escola Normal, para ter o salvo conduto de  uma profissão.
        Mas eu sonhava com mais, e aos dezesseis,  fui cursar a faculdade na capital, minha mãe, na sua ingenuidade, me deu o seguinte conselho: filha, na Universidade, cuidado com as pessoas más, na hora do intervalo fique perto dos professores! Ela acreditava que os educadores são aqueles que conduzem os alunos para o bem! Ela estava certa!
      Eu morava em um bairro distante em Teresina, longe de tudo, passava horas nas paradas de ônibus, indo para a faculdade, ou indo para um dos empregos, necessários para sobrevivência e custear meus estudos. Na Universidade, fiz poucas amizades em um curso elitizado, assim eu fiz da biblioteca, meu refúgio, entre as estantes de livros, eu passava as horas e achava que poderia conquistar o mundo. Foi em outros ambientes, como o da luta sindical que ampliei minha vida social e fiz minhas primeiras grandes amizades na cidade grande.
       Como dentista, assumi a missão de aliviar as dores dos outros, talvez numa forma atávica de minorar as angustias da minha alma. Um dia não tive mais necessidade. Após vinte e poucos anos, senti-me cansada do labor manual e da monotonia da profissão.  Abandonei os fórceps e cingi definitivamente a literatura e a docência, que sempre foi uma segunda atividade.  Aprendi coisas na vida que não encontrei nos livros.  Não há mais pressa, é tempo de sentir e vivenciar os sentimentos mais simples.



[1] Solange Luz é escritora e professora do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Piauí, campus Clóvis Moura em Teresina, Piauí, e doutoranda na Universidade Vale dos Sinos – UNISINOS/RS. Tem contos inseridos nas coletâneas Escrevendo com as E-moções, da Leonella Ateliê e Antologia Mulherio das Letras (Contos e crônicas, v.4) da Editora Mariposa Cartonera.

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